Não importa quão alto é o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano): na Islândia (país de maior IDH) ou em Serra Leoa (país de pior IDH do ranking de 179 nações), as mulheres têm salários menores do que os homens. É isso que diz a edição de 2008 da MPG (Medida de Participação Segundo Gênero), indicador que mede a participação feminina em cargos legislativos, de alto escalão e de gerência, e calcula a diferença entre o salário dos homens e das mulheres. Há países em que a diferença de renda entre gêneros é bem menor do que em outros, mas em todos os homens ganham mais.
O Brasil, com índice de 0,498 (quanto mais perto do 1, melhor), é o 81º em um ranking de 108 países para o indicador, que usa dados de 2006. O levantamento mostra que apesar de as brasileiras apresentarem maior esperança de vida ao nascer (75,8 anos, contra 68,4 dos homens), maior taxa de alfabetização (89,9% das mulheres com mais de 15 anos estavam alfabetizadas em 2006, contra 89,4% dos homens), e maior taxa bruta de frequencia à escola (89,4% das mulheres para 85,1% dos homens), o rendimento feminino, no Brasil é, em média, 56% do rendimento masculino. Isso significa que se os homens recebem R$ 1.000, as mulheres ganham apenas R$ 560.
Isso se dá por conta de
antigas convenções sociais de gênero, de acordo com Ana Carolina
Querino, assistente técnica do UNIFEM (Fundo de Desenvolvimento das
Nações Unidas para a Mulher), que atua na implementação das
atividades do Programa Regional de Gênero, Raça, Etnia e Pobreza do
fundo. “Pelas convenções, a mulher ocupa o espaço privado e o
homem o espaço público, de provedor da casa. Com o tempo a mulher
vem ganhando espaço, mas isso não se reflete no mercado de
trabalho, onde há o que chamamos de teto de vidro: quanto mais alto
o posto nas empresas, menor o número de mulheres”, explica.
Ana acrescenta que a falta de mulheres em cargos de chefia não
acontece somente por culpa das empresas. “O UNIFEM tem um
programa de promoção da igualdade de gêneros nas companhias, que
promove cursos de capacitação para que as mulheres estejam aptas a
ocupar cargos de gerência. E muitas empresas dizem que é difícil
preencher as vagas dos cursos, pois não há procura das próprias
mulheres”, afirma.
Ranking
O país com melhor índice (que
indica menor desigualdade de gêneros) é a Suécia (MDG de 0,925),
que também conta com a menor diferença entre rendimento (a mulher
ganha 84% do salário do homem). Apesar disso, as mulheres ocupam
apenas 32% dos cargos legislativos, 47% dos de alto escalão. Na
ponta de baixo está o Iêmen (MDG de 0,136), onde as mulheres ganham
apenas 30% do salário dos homens, ocupam 0,7% dos cargos
legislativos e têm 4% das posições de alto escalão. No Brasil, elas
ocupam 9,4% dos cargos legislativos, 35% dos de alto escalão, e 53%
dos postos de gestão.
Nas estatísticas do índice de
2008, a baixa presença das mulheres em cargos legislativos (os
menos ocupados por mulheres), de alto escalão e de gerência
acontece até mesmo nos países que têm as menores diferenças entre o
rendimento das mulheres e dos homens.
Uma das formas de reverter a
situação brasileira é “investir numa educação que valorize o
papel da mulher no trabalho e encoraje as meninas para áreas mais
técnicas”, afirma o consultor do PNUD na área de
desenvolvimento humano, Flávio Comim. “Esses dados mostram
que o problema brasileiro é no mercado de trabalho, e por isso, as
políticas devem ir além de uma universalização da educação, visar
valores e qualidade. Devemos traduzir o avanço educacional que
tivemos para o mercado de trabalho”.
“As mulheres dedicam 27
horas semanais para os trabalhos domésticos, enquanto os homens
dedicam dez, independentemente de trabalharem fora ou não”,
acrescenta a assistente do UNIFEM. Ana lembra que um fator
importante para a diferença de renda é o tipo de carreira escolhido
por cada sexo. Segundo ela, as mulheres procuram cursos como
Assistência Social, Enfermagem e Letras, menos valorizados,
enquanto os homens, associados a características como objetividade
e racionalidade, buscam Engenharia, Direito e Medicina. Para que
essa mudança de mentalidade aconteça, Ana acredita na importância
da divulgação de dados como o MPG, revelando desigualdade existente
entre os gêneros. “É preciso mostrar que este não é um quadro
natural”, afirma.
Africanos estão entre
os menos desiguais
Os países escandinavos,
primeiros no ranking do IDH, disputam os primeiros lugares da lista
de países com menor diferença de renda entre homens e mulheres com
países africanos, que figuram no final do ranking do IDH. O Quênia,
144º no ranking do IDH, está em segundo lugar em igualdade de
rendimento entre os sexos (as mulheres ganham 82% dos homens).
Moçambique, 175º no IDH, é o terceiro de menor desigualdade de
renda (mulheres ganham 81% do salário masculino). Na lista dos dez
primeiros colocados ainda estão duas naçõses africanas —
Burundi e Malawi —, com baixo IDH.
A explicação para isso,
segundo Comim, está no fato de que ter um desenvolvimento mais
baixo não significa que a discriminação contra as mulheres seja
maior. A mesma lógica vale pra os países desenvolvidos que,
independentemente do alto IDH, apresentam grandes diferenças nos
rendimentos feminino e masculino — como é o caso da Áustria
(que está em 19º lugar no ranking do IDH e é o 144º na comparação
entre rendimentos de homens e de mulheres), do Japão (8º no IDH e
126º na comparação dos rendimentos) e da Itália (19º no primeiro
ranking e 117º no segundo) . Comim afirma ainda que os casos
específicos do Quênia e de Moçambique podem refletir uma tradição
desses países de ter um papel das mulheres
forte.
Se um número considerável de
países africanos está entre os de menor diferença entre o
rendimento das mulheres e dos homens, no final da lista há uma
outra constante: os países islâmicos. Os dez últimos lugares são
todos de religião muçulmana. A assistente da UNIFEM explica:
“Essas desigualdades são convenções sociais, e nos países
muçulmanos o papel da mulher é mais
subordinado.”
Questão
Antiga
A igualdade de gêneros foi
tema do RDH (Relatório de Desenvolvimento Humano) de 1995, quando,
pela primeira, vez foram calculados a MPG e o IDG (Índice de
Desenvolvimento Humano Ajustado ao Gênero). Sobre a importância do
assunto, o relatório diz: “O reconhecimento de direitos
iguais para mulheres e homens, e a determinação em combater a
discriminação de gênero, são conquistas iguais em importância à
abolição da escravidão, à eliminação do colonialismo e ao
estabelecimento de direitos iguais para minorias étnicas e
raciais.” Segundo o relatório, desenvolvimento humano
significa o aumento das escolhas para todas as pessoas, não só para
uma parte da sociedade. “Este processo torna-se injusto e
discriminatório se a maioria das mulheres são excluídas de seus
benefícios. A contínua exclusão das mulheres de muitas
oportunidades econômicas e políticas é uma contínua acusação ao
progresso moderno”, afirma o texto.
Já nessa época, o estudo
constatou que as maiores barreiras para a mulher eram a econômica e
a política. “A participação da força de trabalho feminina [no
total] cresceu somente quatro pontos percentuais em 20 anos —
de 36%, em 1970, para 40%, em 1990. Em comparação com dois terços
de crescimento no número de mulheres adultas alfabetizadas e nas
matrículas escolares.”
Fonte vermelho.org.br / Por Mariana Desidério, do Pnud

Profª Cristina Sara
Sáb 17 Out 2009 14:50